|
Por: Cassio Spina - Fundador/Presidente da Anjos do Brasil, Lead Partner da Alya Ventures e autor do livro "Corporate Venture Capital"
Compartilho meu mais recente artigo publicado pela EXAME sobre o desafio de atingir o sucesso em CVC: A recente pesquisa publicada sobre os resultados do Corporate Venture Capital no Brasil pela SlingHub mostrou um descolamento, no último trimestre, entre os investimentos realizados por CVCs e o total investido em startups brasileiras. Isto, na realidade, reflete uma infeliz tendência que vem ocorrendo desde a euforia de 2021, quando o dinheiro era abundante e barato e as empresas, impactadas pela pandemia, perceberam que precisavam inovar seus negócios. Atuando há mais de 12 anos com iniciativas de Corporate Venture para diversas empresas e acompanhando as experiências internacionais nos EUA, Europa e Israel, vejo que, apesar de muitas boas intenções, infelizmente se repetem os mesmos erros dos ciclos anteriores de “hype” e posterior depressão. Na pesquisa para o meu livro sobre CVC, estudei as causas de sucesso e de fracasso que se repetem ao longo do tempo. A principal delas é a dicotomia entre metas corporativas, normalmente de curto prazo (até 1 ano), e a visão estratégica necessária para sustentar um CVC, que requer um horizonte de 5 a 10 anos para apresentar resultados. Um caso emblemático recente foi a descontinuação da Oxygea, uma das maiores iniciativas de CVC brasileiras: com capital alocado de US$ 150 milhões, foi abruptamente encerrada por sua empresa-mãe, a Braskem, em virtude de necessidades imediatas de reestruturação — decisões que podem comprometer o seu futuro. Outro erro comum nas práticas adotadas por corporações é a pseudo-terceirização da gestão de seus fundos de CVC: contrata-se uma gestora teoricamente independente, mas se impõe pressão por custos reduzidos e de comando/controle. Isso costuma resultar em uma equipe sem a senioridade necessária e, não raro, em decisões assumidas por executivos da própria companhia sem experiência em investimentos em startups. Há caso recente relatado de um CVC que aplicou 50% de seus recursos em um único investimento — erro básico que qualquer gestor experiente nesta classe de ativos evitaria. Outro caso foi de uma empresa que tinha uma oportunidade estratégia que investimento, mas devido a mudanças na direção da empresa, acabou perdendo o timming. Esses erros são fruto da cultura corporativa que, pelo próprio sucesso empresarial, muitas vezes se ilude achando que pode tomar decisões estratégicas por conta própria. É o erro clássico do comandante de transatlântico que acredita saber pilotar uma lancha de competição: o resultado tende a ser o naufrágio. Outro problema cultural é a intolerância a falhas, que leva à desistência antes de atingir o ponto de maturidade, além da falta de tomada de riscos necessária. Diferentemente do que muitos imaginam, investimentos em startups inovadoras exigem paciência e tentativa e erro, levando pelo menos três anos para validação — exatamente o tempo médio de sobrevivência de muitos CVCs, que acabam “morrendo na praia”. Mas existem, sim, casos de grande sucesso — impressionantemente pouco conhecidos — como o da Naspers, empresa sul-africana centenária, originalmente do setor tradicional de mídia (rádio, TV, jornal). Com o advento da internet comercial, a companhia percebeu que esta nova tecnologia iria disruptar seu negócio e começou a investir em startups em 1999. Teve a resiliência de superar o estouro da bolha da internet e manter a estratégia, diversificando globalmente seus investimentos. Mesmo com vários fracassos ao longo da jornada, obteve acertos relevantes, como no WeChat, em que investiu no começo dos anos 2000 cerca de US$ 30 milhões, passando a deter 30% — participação que hoje vale centenas de bilhões de dólares. No Brasil, houve investimentos fracassados, como no Buscapé, e outros de muito sucesso, como na Movile (dona do iFood) e na OLX. Para as corporações que desejam ter sucesso em suas iniciativas de Corporate Venture, é essencial que: 1- Tenham a humildade de reconhecer que não têm a experiência necessária para executar essa estratégia, delegando-a a profissionais sêniores com pelo menos 10 anos (apenas um ciclo completo) de experiência em investimentos em startups, comprometidos diretamente na gestão, não delegando para times juniors e concedendo um mandato de no mínimo esse mesmo período. 2- Preparem a cultura corporativa da alta liderança (Conselho e C-levels) para tolerar fracassos iniciais e incluam, nas metas pessoais, a integração de sinergias com os investimentos realizados. 3- Blindem o comprometimento dos investimentos ao longo de vários anos, para não serem afetados pelos ciclos econômicos inerentes nem por mudanças de gestão da corporação. Lembrar que o tempo médio das lideranças é, atualmente, menor que quatro anos, enquanto o ciclo de um CVC é de dez. 4- Alinhem as metas do Corporate Venture ao longo prazo, com horizonte a partir de cinco anos, evitando cobrar resultados de curto prazo que limitam a inovação. 5- Aprendam continuamente com as experiências de outras empresas, para evitar erros conhecidos — cientes de que novos erros inevitavelmente ocorrerão. Seguindo estas práticas, há boas chances de o seu CVC estar entre os 10% que terão sucesso! Quer saber mais como estruturar e operar um CVC? Será um prazer conversarmos melhor. Envie uma mensagem para mim que retornarei mais breve.
0 Comentários
Your comment will be posted after it is approved.
Leave a Reply. |
AutoresEste blog é aberto para colaboradores. Caso deseje enviar um artigo entre em contato conosco. Histórico
Agosto 2021
Categorias |
Feed RSS